Estamos sós na sala, recostados languidamente em dezenas de almofadas espalhadas pelo chão. Chamas crepitam na lareira, aquecendo e iluminando suavemente o ambiente.

As luzes estão apagadas, e o brilho do fogo forma sombras difusas, como se nossos pensamentos mais secretos estivessem ali projetados.

Uma música ao longe nos envolve, enquanto saboreamos o vinho aquecido por nossas próprias mãos, vibrantes e trêmulas pelas carícias cada vez mais ousadas que trocamos... Sua boca torna-se ansiosa, já não há limites para meus lábios, que percorrem seu corpo num crescente e incontrolável frenesi de desejo sufocado!

Ensandecidos, perdemos o frágil controle que nos resta, as poucas peças de roupa que ainda nos cobrem são arrancadas em desespero, nossas bocas se encontram num beijo alucinado, para em seguida deslizar por nossos corpos, beijando, acariciando, mordendo levemente, aspirando com prazer o odor erotizante que emana de nossa pele, deixando-nos completamente fora de sí, como se estivéssemos sob o efeito de um coquetel de alucinógenos!...

Nossos corpos se entrelaçam, mãos, pernas, e bocas se buscam em desespero, transformando-se em um único corpo, uma única alma...

Com voz rouca, entrecortada, sussurramos palavras desconexas, sem sentido, que somente nós entendemos. A sombra de nossos corpos dança lascivamente na parede, em transe com a consumação da posse e da entrega!...

Então, o Sol explode em milhões de fragmentos multicores, um longo beijo sufoca o som arquejante que tenta escapar de nossos lábios, sentimos nossos corpos flutuarem no espaço infinito, e a paz afinal nos invade...

Exaustos, continuamos aninhados, as carícias agora são ternas e suaves, com leve sabor de mútua gratidão... Finalmente, os olhares se encontram, e pela primeira vez, enxergamos nossa alma, nua, refletida no lago plácido em que se transformaram nossos olhos...

Carlili L. Vasconcelos (Kamael)
Sampa, 7/7/99